Domingo, 12 de junho de 2005

 Caderno B10

Crítica - Disco


O Sincopado está em festa

O Sambista Germano Mathias celebra em CD o mestre Caco Velho

Tarik de Souza

Tem paulista no samba do gaúcho. De deixar boquiabertos com o sincopado o mineiro Geraldo Pereira e o paraibano Jackson do Pandeiro. Em matéria de divisão rítmica, mobilidade de palco, agilidade como ritmista e invenção de instrumentos de boca, o porto-alegrense do bairro de São João, Mateus Nunes, mais conhecido como Caco Velho (1919-1971) foi professor do paulista do Pari, Germano Mathias, nascido em 1934. Até cedeu-lhe o lugar, em 1955, na rádio Tupi paulista, quando embarcou para uma carreira européia, e o discípulo ganhou a chance de substituí-lo num concurso entre 300 candidatos. Cinquenta anos depois, em plena forma, Germano presta seu Tributo a Caco Velho (Atração).

O aluno catedrático do samba, agraciado, em 1967, com o grau de bacharel da Ordem da Palheta Dourada da escola paulista X-9 - ganhou luz própria. Isso ele demonstra nas 14 faixas criteriosamente escolhidas do CD, onde, por modéstia, deixou de fora a parceria com o mestre, O toro já chegou, que gravou anteriormente no disco Samba é comigo mesmo. Como sublinha no minucioso texto do encarte Caio Silveira Ramos, estudioso do samba paulista com um livro sobre o assunto no prelo, Caco recebeu Mathias como filho e herdeiro artístico. Daí a integração completa entre homenageado e celebrante em faixas como Que baixo, de 1945, da dupla de gaúchos Caco Velho (nome de um belo samba de Ary Barroso que Mateus gostava de cantar) e Lupicínio Rodrigues.

 

Chamado de "sambista infernal" (todo artista na época tinha um slogan), Caco esbaldava-se, como o aluno, em temas gaiatos como o esfuziante Meu fraco é mulher (Conde/ Heitor de Barros), de 1946, Barriga vazia (B. Fonseca/ Luiz Alex), de 1950, e o estranho caso de A palhaçada (Habib/ José Henrique/Heitor Carillo). Ligeiramente alterada no andamento e na letra, esta música consta do LP O comendador bossa nova, gravado em 1962, com o título de Parei na jogada, parceria do próprio cantor com José Sacomani.

Deste disco, aliás, saiu a maioria das faixas do CD, que tem ainda uma homenagem do biógrafo Caio (Tempo feliz) e um samba inédito de Padeirinho da Mangueira (Nega velha), um dos maiores fornecedores de Germano. O título não associa Caco Velho à bossa por acaso. Além de duas ótimas recriações de clássicos do movimento (O pato e Samba de uma nota só, obviamente não reproduzidas por Mathias) ele incursiona na dissonância da bossa na belíssima Onde está (em parceria com Lúcio Martins), re-visitada por Germano.

Que também recanta do mesmo disco o samba manifesto na linha de Desafinado, Tonalidade original (Pacheco Viola). E escracha em Uma crioula (parceria com José Sacomani), o elegante samba canção Uma loura, precursor da bossa, na voz de Dick Farney.

Armado de cuícas e trombones (afinados e improvisadores) na garganta, Germano ainda restaura dois outros sucessos de Caco, Alegria de pobre (Cyro de Souza), de 1948, e Vida dura (David Raw/ Jucata), além de desencavar Moleque vagabundo (António Almeida/ Marino Pinto), êxito de 1945 de Cyro Monteiro, que Caco gostava de incluir em seus shows. De Mateus a Mathias, o sincopado está em festa.