AI, AI, QUE COISA LOUCA!

 *A VIDA DE CACO VELHO, O COMPOSITOR * ARRASTADO PELAS MULTIDÕES, O VENCEDOR DO ÚLTIMO CONCURSO DE MÚSICAS POPULARES, DE PORTO ALEGRE, COLOCA-SE AO LADO DE LUPICÍNIO RODRIGUES  * MATHEUS NUNES, UM MENINO DE 12 ANOS * MONTEVIDÉO, BUENOS AIRES E HOLLYWOOD

 

   Num dos últimos números  da “Revista do Globo”, o repórter Jorge Cordeiro registrou a seguinte afirmação, colhida entre os nossos compositores de música popular:

            -“Este ano os porto-alegrenses vão se divertir no Carnaval com melodias porto-alegrenses.”

            Confere. Se os rádios silenciassem, se os discos desaparecessem, mesmo assim não ficaríamos sem ritmos para as batucadas de Momo. A produção dos sambistas da cidade, este ano, foi tão intensa e é tão expressiva, que bem poderíamos dispensar a importação carioca.

            Isso vem mostrar que a nossa música, característica por excelência, não é uma “condição geográfica”, mas uma “manifestação racial”. Confirmo outra vez as observações do meu colega Cordeiro: - “O samba está onde quer que haja elementos genuínos, reminiscências ou simples sugestões afro-brasileiras. Como tudo isso existe aqui, também em Porto Alegre o samba tem se manifestado legítimo e puro”.

 

VIBRAÇÃO E SENTIMENTO DA MULTIDÃO

 

            A “Folha da Tarde”, vespertino amplamente popular, que toda a cidade lê, numa atitude já natural e quotidiana, escreveu na sua edição de 19 do corrente:

            - “Entre os grandes espetáculos que Porto Alegre teve a oportunidade de assistir, raros foram os que atingiram a grandiosidade da noitada de sábado último, no Auditório Araújo Viana”.

            O vespertino da cidade referia-se ao julgamento ao ar livre, perante a multidão, do grande concurso de músicas carnavalescas que promoveu, em colaboração com uma emissora local e uma firma distribuidora de aparelhos de rádio.

            Cerca de 15 mil pessoas, cobrindo de povo o Auditório Araújo Viana, como só tem acontecido de tempos em tempos, acompanharam o desfile das melodias programadas para o julgamento final.

            O concurso, que mobilizou mais de 40 compositores, com cerca de 70 produções, apresentou 18 sambas e marchas, selecionados pelo próprio público, ao veredito definitivo da comissão julgadora, integrada por Ivo Astolfi, Justino Martins, Salvador Campanela, Josino Campos e Guy Mriz – músicos, jornalistas, técnicos.

            Concorreram ao disputado e significativo certame, nesta última instância, as seguintes composições e os seguintes autores: “Olha a faixa”, marcha de Johnson e

Lucena; “Eu sou pobre”, samba de Caco Velho; “Onde dois colhiam flores”, marcha de Silvio Pinto; “Ela vive gastando”, samba dos Garotos Endiabrados; “”Casa Nova”, samba de Dinho e Mutt; “Foliões”, marcha de Lauro Silva; “Gauchinha”, marcha dos Garotos Endiabrados; “Perdão, pensei que fosse Adelaide”, marcha de Johnson; “Juraci”, marcha de Lauro Moreira; “Três pequenas do barulho”, marcha dos Garotos Endiabrados; “Que coisa louca”, samba de Caco Velho; “Linda Gaúcha”, marcha de Nelson Lucena; “Adão, meu Adão”, samba de Sílvio Pinto; “Passo do Pirú”, marcha de Lupicínio Rodrigues; “Beija-flor”, samba da Dupla Revelação; “Ando a procura”, samba de Caco Velho”. Não entraram em concurso, pela ausência de seus autores, “Eu sou o tal”, samba de Vando, e “Maria Inês”, marcha de Onadir Vieira .

 

LUPICÍNIO RODRIGUES E TAMBÉM CACO VELHO, O NOVO CARTAZ

 

Quando se tratava de música popular em Porto Alegre, no ritmo carnavalesco principalmente, vinha logo o nome de Lupicínio. Recorro novamente a Jorge Cordeiro, um dos nossos jornalistas que melhor fixa aspectos da cidade, porque sabe sintonizar com as vozes e os sentimentos das ruas:

-“Lupicínio é o tal, anda sozinho”.

Agora é preciso retificar: ele ainda pode ser o “tal”, mas não anda mais sozinho. O movimentado concurso de melodias carnavalescas deste ano lançou um novo cartaz: Caco Velho, o vencedor absoluto da colorida parada musical. Caco Velho venceu, com base nos aplausos da multidão, e de acordo com este veredito:

1o. lugar – “Eu ando a procura”, samba de Caco Velho, com 5 pontos.

2o. lugar – “Passo do Pirú”, marcha de Lupicínio Rodrigues, com 4 pontos.

3o. lugar – “Que coisa louca”, samba de Caco Velho e Nelson Lucena, com 3

pontos.

  

1936 – RIVADAVIA DESCOBRE UM SAMBISTA

 

Lupicínio já era uma figura exótica, de pêra mefistofélica, mas completamente anônima.

Um belo dia, Rivadavia de Souza, numa de suas andanças pela Colônia Africana, farejando assuntos de reportagem, ouviu escapar-se da porta entreaberta de um daqueles casebres, uma melodia rica e vigorosa, um amplo e profundo samba orfeônico, mas desconhecido por completo, de ritmos por assim dizer virgens.

Aquele distante samba de ritmos virgens era de Lupicínio Rodrigues.

Rivadavia foi encontra-lo, no dia seguinte, trafegando nos corredores da Faculdade de Direito, na sua qualidade de contínuo obscuro e anônimo. E o lançou, na tarde desse mesmo dia, aos bons ventos da popularidade, numa descoberta em que dizia isso, mais ou menos:

-         “Botem o olho nesse moreno, guardem o seu esquisito nome; ele é um legítimo poeta do povo, sua voz límpida e emotiva cantará na voz do povo”.

De fato, em Lupicínio prevalece o senso poético. Alguns de seus sambas seriam excelentes poemas. Agora, esse que se consagrou outro dia, o Caco Velho, é principalmente da melodia, é poderosamente musical. Mesmo com letras pobres e até sem sentido, ele tem forças para contagiar o enorme povo.

            Assim, esses dois sambistas se completam, representando a poesia e a música das ruas da cidade.Daqui por diante não será possível separa-los. Eles se confundem na mesma expressão folclórica.

 

O GRITO DE CARNAVAL DE 42

 

            Tem-se feito muita demagogia em torno da chegada a Paris, no mesmo dia, pelo mesmo trem, de Jack Dempsey e Madame Curie: o boxeur recebido nos braços da multidão empolgada e a maravilhosa benfeitora da humanidade, inteiramente dasapercebida, mas já coberta de glórias eternas, apenas recebendo os encontrões dessa mesma multidão. 

            Repórter não discute os fatos; constata-os. A vitória de Caco Velho, no recente concurso de músicas carnavalescas, constituiu impressionante consagração. Uma vez conhecido o resultado final, o público enorme, aquelas 15 mil pessoas, vindas de todos os subúrbios da cidade, formaram ruidosos cordões ao som da melodia premiada, numa vibração rasgadamente carnavalesca. Os fãs mais impetuosos, lá pelas tantas, carregaram Caco Velho rua da Ladeira abaixo. Aí, o sambista de Porto Alegre, embora sem a clássica coroa de louros, viveu um momento de glória como só na velha Grécia... Na altura do Café dos Artistas, Caco Velho resolveu retribuir tantos aplausos. E os fãs, sem nenhuma consideração, beberam o dinheiro do prêmio...

            Assim, com Caco Velho fantasiado de herói grego, foi dado o grito de Carnaval de 42 nesta cidade de Porto Alegre.

            Salve ele!

  

AS MIL MANEIRAS DO SAMBA

 

-         Como se faz um samba?

-         Há mil maneiras, responde Caco Velho. Cada um tem a sua. Mas, no fundo, a bossa deve ser a mesma.                    

            Caco Velho é repousado, fala em câmera lenta. Depois de um longo fôlego continua:

-     Lupicínio ganhava sempre, eu não esperava o prêmio. Foi uma surpresa, no duro. Eu levava mais fé numa marcha, que nem foi classificada. Era mais do barulho. Mas a comissão não foi no barulho, preferiu a melodia. “Ando a procura” é um samba quase de rancho, um desses sambas para grandes coros. Gostaria de ouvi-lo na Praça Onze, numa daquelas madrugadas já sem estrelas do carnaval carioca, quando os ranchos se concentram, formando milhares de pessoas à espera de bondes para os morros e subúrbios, derreadas de cansaço, mas ainda e sempre cantando...

            Caco Velho tem forças para ver esse seu desejo realizado. Como Lupicínio, ele também atingirá o Rio. Os seus sambas são de uma pureza e de um vigor raramente atingidos. Ele é da classe dos Vilsons Batistas  e dos Ataulfos Alves, legítimos filhos de Ogun.

            Aliás, Caco Velho já chegou ao Rio, através de suas composições: no repertório de Ciro Monteiro, ele tem “Tua pose”, um samba com Mutt, e no dos Pingüins tem diversos sambas e marchas, inclusive a gravação de “Olá, como vai o senhor?”. Orlando Silva e Sílvio Caldas já interpretaram produções de Caco Velho, e as Irmãs Medina gravaram o seu delicioso samba, de límpido acento folclórico,

“O carreteiro”, feito em colaboração com Piratini.   

            Mas nenhum desses episódios constitui a emoção maior do popular sambista. Ouçamo-lo contar a grande emoção de sua carreira de compositor por instinto:

            - Quando guri, eu era o fã número um dos Turunas. Onde esse velho e querido bloco andava, nos dias e nas noites de carnaval, lá andava eu também, formando no cortejo anônimo dos seus admiradores. Agora, os Turunas, que já deram Horacina para o rádio do Brasil, vão sair com sambas e marchas meus, feitos especialmente para o carnaval deste ano.

            Caco Velho faz uma demorada pausa evocativa, e deixa no ar esta expressão do povo:

            - As voltas que dá a vida...

 

PAULO COELHO TRAÇA UM DESTINO

 

            Caco Velho foi Matheus Nunes até 1932, quando aconteceu Paulo Coelho no seu caminho. Sem a interferência do enorme e sempre chorado pianista-boêmio, Caco Velho seria Matheus Nunes a vida inteira. Matheus Nunes ou João da Silva, uma obscuridade qualquer...

            Foi no tempo do Florida, a melhor casa de chá e restaurante que Porto Alegre já possuiu. O Gordo era chefe da orquestra, por sinal uma das grandes atrações do estabelecimento. Entre os empregados inúmeros, figurava o menor de nome Matheus Nunes, que vendia cigarros num tabuleiro, orgulhoso do seu berrante fardamento verde. Nos momentos de samba de morro, quando o “santo”descia na turma da orquestra, o menino Matheus, completamente “tomado”, embora sempre à distância, vendendo os seus cigarros de mesa em mesa, executava uns “breques”cheios de “bossa”no tabuleiro, ficando em estado de verdadeira unção rítmica.

            Paulo Coelho era desses temperamentos iluminados, capazes de traçar destinos. Observava, de longe, as reações do menino negro vendedor de cigarros, em face da poderosa música de seus ancestrais da senzala. Certa vez, assim como quem não quer nada, aproximou-se dele, e ofereceu-lhe a grande oportunidade:

-         Sabes cantar, menino?

-         Cantar, mesmo, não. Só sei um samba...

-         Então, sabes. É com “um”que a gente começa.             

            O menino negro vendedor de cigarros do Florida, de nome Matheus Nunes, sabia cantar “Caco Velho”, um samba então muito em voga. Subiu para o estrado da orquestra, acompanhado e dirigido por Paulo, e desacatou a “granfinagem”. Cantou, recebeu muitas palmas e um apelido – Caco Velho...

  

PIRATÍNI, HOLLYWOOD E OUTROS ACONTECIMENTOS

 

            Desde aquele minuto, que o Sr.Zweig usa taxar de decisivo na vida dos seus ilustres biografados, até a recente vitória no concurso de músicas carnavalescas deste ano, tem acontecido uma infinidade de pequenos e grandes acontecimentos na carreira e na vida desse sambista.

            Em 1933, Caco Velho ingressou no rádio, por intermédio de Nelson Lança. Daí em diante, tem tocado tamborim e pandeiro em diversos regionais. Sua estréia como compositor foi em 1936, com o samba “Chorei”, de parceria com Carlos Ferreira. Lançado em primeira audição por Circinha Milano, na Difusora, esse samba de estréia cumpriu bonita carreira, principalmente na voz de Sílvio Caldas, que o interpretou na Mayrinck Veiga e na Rádio Club do Recife. A sua segunda composição, uma marchinha de rancho, “Palhaço”, feita em colaboração com Johnson, foi primeiro lugar no concurso instituído pela prefeitura, no carnaval de 1940, quando apresentada pelos “Divertidos Atravessados”.

            É por demais longo esse “rosário” de incidências. Mas há uma em que aparece o inestimável Foquinha, vou recorda-la à guiza de saudade daquele que soube ser um dos mais compreensivos e vibráteis repórteres da cidade. Na primeira grande festa radiofônica realizada em Porto Alegre, na praça pública, para a multidão das ruas, uma iniciativa esplêndida de Foquinha, em 1936, Caco Velho apareceu no conjunto de Piratini, que estava afiadíssimo, abafando ao ponto do sr. Pizoli contrata-lo para a sua estação, naquela noite mesmo. Depois de uma atuação de quase dois anos na Difusora, sempre integrando o conjunto, Caco Velho teve a feliz oportunidade de acompanhar Piratini na sua ruidosa excursão a  Montevidéu e Buenos Aires.      

            O popular conjunto, integrado por Piratini, Bode, Carne Assada, Caco Velho, Japonês e Armando Alencar estava na Radio Carle de Montevidéu. De  passagem para Buenos Aires, vindo do Rio, em companhia de Harry Roy e sua famosa orquestra, o sr.Yankelevitc, proprietário da Radio Belgrano, teve oportunidade de ouvi-los. Ficou tão impressionado, que os contratou logo. E Piratini, Bode, Carne Assada, Caco Velho, Japonês e Armando de Alencar “acamparam”na grande emissora de Buenos Aires, durante 75 longos dias, batendo um recorde de permanência em microfone estrangeiro.

            Ocorreram nessa temporada, em que cada audição era uma vitória, os mais excitantes episódios. O principal foi uma transmissão diretamente para Hollywood, na qual a música brasileira foi representada pelo conjunto de Piratini, tendo Caco Velho cantando, para as celebridades do cinema, o samba “Mulher, toma juízo”, de Ataulfo Alves.

-         Se quiséssemos – afirma Caco Velho – ainda estaríamos lá. Queriam renovar nosso contrato a todo pano, até por tempo indeterminado. Recebemos também propostas de diversos empresários para trabalhar noutras estações. Mas não havia proposta que servisse.

-          Como então é assim que se deixa Buenos Aires?

-         Deixa-se – finaliza Caco Velho. – É só vir a saudade. E, mais hoje, mais amanhã, a saudade se apresenta. Lá só dá tango, eles não têm o velho samba...