A História de Caco Velho

 

          O menino Mateus nasceu no bairro São João em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 12 de março de 1920. Com 8 anos apenas, começou a cantar e tocar pandeiro na Rádio Gaúcha (ainda no tempo do rádio de galena). E desde a primeira música que cantou num microfone (uma que dizia assim: - “papagaio louro do bico dourado...”) até hoje, só tem feito cantar samba, sempre samba.

          Com 10 anos, fez o primeiro sucesso junto ao público de sua terra: o samba-canção de Ary Barroso Chamado “Caco Velho”. Nessa época, o Mateus já fazia parte, como ritmista do conjunto Piratini (famoso músico e cômico gaúcho) e, em todas a festas pediam ao Mateus para cantar “Caco Velho”. Então caco velho p’ra cá, caco velho p’ra lá, um dia o pianista do conjunto, Paulo Coelho, o chamou pela primeira vez de Caco Velho e não de Mateus. A primeira reação do Mateus foi chorar de raiva e ficar doido da vida, reação que ajudou ainda a alcunhar “pegar”. E do ambiente pequeno formado pelos músicos do conjunto, a alcunha passou a ser conhecida por todo o público gaúcho, quando o jornalista Rivadávia de Souza fez publicar uma reportagem sua com o título (e com fotografias e tudo): “Surge um Caco Velho na cidade, um novo sambista e pandeirista”. Dali por diante, a não ser daquilo que se referisse a cartório ou banco, desapareceu o Sr. Mateus Nunes para dar lugar, definitivamente ao Sr. Caco Velho.

          Em 1935 nasceu dentro do artista, um novo artista: o compositor. De parceria com Lupiscínio Rodrigues, Caco Velho compôs o samba “Que Baixo”. Ele mesmo o cantava aí já surgiram outras bossas que o cantor conservava até hoje: as de cantando, imitar com a boca os sons da cuíca e com a boca fazer “breques”, coisas que nasceram espontaneamente com ele.

          A vinda de Caco Velho para São Paulo surgiu depois de uma excursão que fez como integrante do conjunto de Piratini, em 1940; excursão por Argentina, Uruguai, Chile e Peru. Na volta, a turma toda se fixou em Porto Alegre novamente, menos o Caco Velho que veio sozinho para São Paulo estimulado por um amigo seu, o saxofonista Marino, que aqui trabalhava. O músico amigo o colocou imediatamente como ritmista da orquestra de J. França que era a melhor de São Paulo na época. Nessa orquestra, que tocava no Cassino O.K., o “Caco” tocava pandeiro; quando a orquestra se transformava em típica “portenha”, ele ia para o contrabaixo.

          Um dia, precisamente na noite de Natal de 1940, o cantor da orquestra, por qualquer motivo, faltou. Então, para substituir o Rui Rey que era o cantor, Caco foi chamado para “quebrar o galho”. Quebrou, cantando os 4 únicos sambas de que conhecia letra: “Caco Velho”. “Se Você Jurar”, “Ai, que saudades da Amélia” e “Beija-me”. Cantou, mostrou suas bossas, seu jeito espetacular, gostoso e novo de fazer improvisos com a voz, fora da letra dos sambas. Agradou. Impressionou. Chamou a atenção de todo mundo e especialmente de uma turma que se encontrava apreciando: Leo Vilar, Silvio Caldas, Aracy de Almeida, outros e Dermival Costa Lima. Este último, diretor da Rádio Tupi, Combinou a assinatura de um contrato. Na Tupi, por esse contrato, o Caco ficou cantando só até 1960; apenas 20 anos. Tanto tempo que ele, quando vinha até o Sumaré, só chamava a gente de “meu irmão”.

          O primeiro disco que gravou reunia: “Maria caiu do céu” (dele e de Nilo Silva) e “Briga de Gato”(de Lupiscínio Rodrigues). Fez essa gravação para a Odeon, tendo sido levado para lá pelo compositor e jornalista Dennis Brean.

          Depois, gravadora Continental (quem o levou foi o João de Barro). Sucessos, um atrás do outro: “Não faça hora comigo”, “Meu fraco é Mulher”, Deu Cupim”, “Que Baixo”, “Chinesinha”, “Samba Russo”, “Até Onde Vai o Tubarão”, outros. Depois, antes de ir para Paris em 1955, gravou um disco na Columbia: “Uma só Vez” e “Vida Dura”. Foi para Paris e abafou. Ficou lá 2 anos, gravou um LP de samba-sucessos na Ducretet-Thomson e atuou esse tempo todo na boate La Macumba do Bairro de L’Opera (o Caco dava uma rizada desse tamanho quando diz que “os cara lá, falam L’Operra”). Era, ali, o cantor da orquestra de George Henry. Quando este saiu, o Caco passou também a diretor da orquestra. Gilbert Becaud era um dos freqüentadores da boate e achava o jeito de Caco cantar, “très interessant”.

          Em 1957, Brasil de novo. Discos Copacabana. LP “Vida Noturna”. EP “A Voz do Sangue”. EP “Caco Velho”. Algumas faixas preciosas em matéria de samba, música brasileira enfim: “Botina Estranha”, “Nega” e “Eh! Boi”.

          Finalmente, o Disco “O comendador da bossa nova” da gravadora Continental, que deu ao cantor a liberdade e a autonomia maior para escolher as músicas, o tipo de conjunto que o deveria acompanhar e tudo o mais. E o cantor afirma que, esta foi a primeira vez que fez um disco do jeito que queria. Foi o melhor disco e o último que gravou antes de falecer 8 anos depois.

          Foi um dos maiores artistas da época que influenciou muito ao nosso ritmo brasileiro: cantor sambista, pandeirista, contra baixista, compositor, arranjador (e compositor internacional invadindo os Estados Unidos com muitas gravações feitas pelos músicos de lá mesmo). Compôs; “Mãe Preta” gravada por Amália Rodrigues e Orquestra Melachrino, que também se tornou um dos temas da novela “Escrava Isaura” cantada pelo coral Som Livre,  também cantada na versão “Barco Negro” por Ney Matogrosso muitas vezes no final de seus shows; “Porquoi” chegou a ser interpretado por Elis Regina no programa “Som Livre Exportação” na Rede Globo em 1971.

           Sendo um dos pioneiros da TV brasileira, não poderia deixar de ter a sua participação em alguns de nossos filmes, entre eles; “Mulher de Verdade” (de Alberto Cavalcanti, 1954), “Carnaval em lá Maior” (de Ademar Gonzaga, 1955) e “Carnaval na Atlântida” (de José Carlos Burle, 1952) com Grande Otelo, Oscarito e tocando junto com Dick Farney.

          Um artista assim não pode ser esquecido, faz parte da história da nossa preciosa e querida Música Popular Brasileira.