"CACO VELHO” (O DA "MÃE PRETA"):

A BOSSA NOVA NUNCA DESTRONARÁ O SAMBA 

            Talvez excêntrico no vestir, ponderado no falar, assim é "Caco Velho", o compositor brasileiro que, aos quinze anos, escreveu a canção que o tornaria famoso: "Mãe Preta". A mesma canção que a nossa Amália cantou, vertida em termos de fado, chorada no dedilhar de guitarra e viola, sincopada no ritmo do pandeiro.

            Caco Velho, cantor e compositor, amante do samba puro e grande amigo de Amália, está em Lisboa, aonde chegou há dias, refugiando-se num hotel para melhor escrever duas melodias, as primeiras que a nossa capital lhe inspirou.

            Mas "Caco Velho" é alcunha que, por sinal, arrasta certa história:

            --  Aos oito anos eu vendia rebuçados às portas dos cinemas. Nessa época ainda o sonoro não chegara ao Brasil, e o mudo era o rei. Num desses cinemas havia uma orquestra, dirigida pelo falecido Paulo Coelho. Inquieto por natureza, eu nunca resistia a ficar durante largo tempo a vê-los tocar, especialmente o velho Américo da bateria, a quem eu ajudava nas deslocações. Um dia fomos convidados para um baile de sociedade, no Porto Velho. E, aí, aconteceu o inesperado: Assis Gonçalves, o vocalista, não aparecia.

            Caco Velho gosta de contar, tem jeito para contar uma história, e nós ouvimos sem interromper.

            -- Nesse tempo a Elisa Coelho havia gravado o "Caco Velho", de Ary Barroso, um samba que estava a alcançar um grande êxito. Foi quando eu disse que era capaz de interpretar o "Caco Velho"na ausência do vocalista. A proposta foi aceita e cantei. E, inesperadamente, todo mundo parou de dançar para me aplaudir. A partir daí, fiquei... o "Caco Velho".

            Conversamos no hall do hotel. Caco Velho confessa-nos ser esta a primeira vez que visita  Portugal, país que sonhava conhecer desde criança.

                -- Já vivi em França e agora, mais recentemente, nos Estados Unidos; mas nunca encontrei uma hospitalidade e uma simpatia como em Portugal, onde é agradável ouvirmos a nossa língua e notarmos a mesma forma de sentir, de ver as coisas.

  "ENTRE A BOSSA NOVA E O SAMBA, PREFIRO O SAMBA"

           Caco Velho, Matheus Nunes de seu nome próprio, iniciou a sua carreira de compositor na orquestra de Piratini, o qual, aliás, assinaria também muitas de suas composições. Sem dúvida que o seu maior êxito foi a "Mãe Preta", que conheceu versões em diversos  países. A propósito, diz  Caco Velho:

          -- Sabe, estou muito agradecido à grande Amália e à Maria da Conceição, porque a ambas, principalmente, devo o renome conseguido pela "Mãe Preta".

          Hoje, Caco Velho tem perto de cem composições e dezenas de discos gravados. O seu estilo adapta--se ao samba puro e à música folclórica. Mas Caco Velho é, essencialmente, um sambista.

          -- Gosto, acima de tudo, de escrever samba puro. A Bossa Nova é "Bossa Velha", porque já há anos eu a improvisava. E note que a Bossa Nova não tem riqueza melódica. O samba sim, esse é melodia.

          -- Não considera que a Bossa Nova esteja a destronar o samba?

          -- O samba nunca será destronado pela Bossa Nova nem por qualquer outra. O samba é a maior expressão da música do Brasil.Todos os compositores que o escrevem começam por "bater" a caixa de fósforos, só assim ganhando o sentido de ritmo. E samba é a cuíca, o pandeiro, o reco-reco e o gaúza. Samba é Brasil.   

          "ENTRE A BOSSA NOVA E O IÉ-IÉ-IÉ PREFIRO A BOSSA NOVA"

           -- É contra a Bossa Nova?...

          -- Também canto e componho no ritmo Bossa Nova. E confesso que, entre a Bossa e o ié-ié-ié, prefiro a B.N. Mas que considero o samba o maior, isso considero.

          O compositor vem trabalhar a Portugal, contratado pela empresa do Maria Vitória.Tenciona demorar-se. E, enquanto não apresenta ao público  lisboeta o seu samba, vai compondo melodias para Amália, duas delas já quase concluídas: "Plim, pim, pim" e "Conselho", este num ritmo onde se misturam o bailinho e o samba.

          -- Estou a adorar o vosso país. Qualquer dia ainda penso ser português.