Jornal da tarde - Sábado, 20 de agosto de 2005

Caderno Cidade A4


 

Lembrar Caco Velho

Germano, seu novo CD, 'Tributo a Caco Velho", (Atração) é uma homenagem a um dos mais criativos sambistas do país, mas pouco conhecido. Por quê você, um sambista veteraníssimo, decidiu celebrar um sambista lendário?.

Germano Mathias - É um reconhecimento pessoal ao seu talento. Caco Velho era um sambista importantíssimo. Só não ganhou maior destaque porque ficou em São Paulo e não no Rio. Ele inspirou o meu jeito de cantar. Eu me espelhava nele.

Você tem 71 anos. Chegou a conhecê-lo pessoalmente?

Claro. Nós até nos tratávamos como compadres. Caco morreu cedo, com 51 anos, em 1971. Era gaúcho do interior, de Piratini, e foi lá que começou. Parece que chegou a São Paulo nos anos 40. Fez turnês pela Europa. Teve um bar no centro, o Brazilian's Bar, que era muito frequentado. Ele se chamava Matheus Nunes. Contava que o apelido veio do samba de Ary Barrosos, com o mesmo nome, que fazia parte do seu repertório. O engraçado é que ele começou como pandeirista. Era um pandeirista muito bom, tinha muito ritmo. Num dia, faltou o cantor, ele foi quebrar o galho e se consagrou.

O que o Caco Velho tinha de tão especial. Germano?

Ela uma figura muito boa como artista. Tinha muita presença Usava aqueles paletós brilhantes, dos sambistas da velha guarda. E além da voz, tinha um suingue de primeira.

Explique isso melhor.

Era um jeito sincopado de cantar, que hoje o pessoal mais jovem não sabe fazer. Era um jeito sincronizado de cantar sambas.

 

Esta sincronização não seria aquela divisão de samba de gafieira, bem gingada?

É esta mesma. É aquela marcação alegre e contagiante que Jackson do Pandeiro tinha quando cantava samba. Você se lembra dele? É isso que chamo de sincronização. Você faz a divisão com a batida na frente. Hoje, parece que a batida está sempre atrasada. O pessoal não sabe fazer a divisão. Eu tive a sorte de aprender com o Caco.

Todas as músicas do CD são de Caco Velho?

Não. Das 12 músicas, uma é do Padeirinho da Mangueira, que fez especialmente para mim, dois meses antes de morrer, em 1987. O resto é de Caco. Aliás, Caco foi parceiro de Lupicínio Rodrigues em muitos sambas. Todas tem essa marca dele: o samba suingado, sincronizado, as melodias variadas.

E quais você destacaria entre essas faixas?

Todas. Mas destaco "Meu fraco é mulher", que hoje já se tornou um clássico.