Jornal?  – 16 de Setembro de 1971


Caco Velho sabia que estava mal

Caco Velho não pode conhecer seu primeiro netinho, que chegará ao mundo daqui a alguns dias: morreu na noite de anteontem, depois de alguns meses de doença, no Hospital das Clinicas, onde fora operado no último dia 23 de agosto. O famoso sambista negro não desconhecia seu verdadeiro estado de saúde, tanto que, duma feita, afirmou: “Ninguém conseguirá me matar, antes de nascer a minha netinha” (ele achava que seria uma menina).

O gaúcho Mateus Nunes começou sua carreira cantando “Caco Velho” (daí o apelido), nos parques de diversões de sua terra.

 

Morreu aos 52 anos de idade, 40 dos quais dedicados à musica popular brasileira, uma vez que iniciou cedo a cantar e a compor. Seus melhores anos artísticos foram os da década de 50, quando chegou inclusive a montar uma boate na capital.

Caco Velho deixa esposa e quatro filhas. Seu corpo foi velado ontem, no Araçá, e enterrado à tarde no cemitério Campo Grande, onde o prefeito Figueiredo Ferraz doou um túmulo à família.

“Noite Ilustrada”, Germano Matias, Joel de Almeida e outros sambistas, artistas da televisão, foram ao Araçá levar as últimas despedidas a Caco Velho.

 

Ele foi um dos divulgadores do samba no exterior, tendo inclusive residido durante alguns anos nos Estados Unidos e em Portugal. Aqui no Brasil, além das apresentações na televisão, Caco Velho cantou em muitas boates. E sempre levou muita gente, para ouvir seus sucessos marcantes: “Mãe Preta”, “Carreteiro” e “Nêga sem Sandália.”

Ontem, durante o adeus a Caco Velho, a tristeza maior era de sua sobrinha afilhada Elisa, de 14 anos: quando ela nasceu, não havia recursos perto de sua casa e Caco Velho fez às vezes de “parteiro”, ajudando-a a vir ao mundo.